boa acção

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boa acção

Mensagem  Admin em Ter Jun 09, 2009 6:39 am


E
Esta fase da minha vida foi, apesar de ter ido trabalhar com 13 anos de idade, maravilhosa. No fundo, creio que todos nós, passados alguns anos relembramos com saudade e revivemos com emoção, todo esse período em que, além das obrigações a que estavamos sujeitos, só pensavamos em diversão. Muitos haverá certamente a quem a juventude não traz bonitas recordações, no entanto, mesmo esses aposto, sorriem ao recordar determinados factos ocorridos na suas juventude.

Integrei o movimento escutista em Portugal, dos dez aos 18 anos de idade, e posso dizer, que foi simplesmente fantástico. Não só pela vida ao ar livre, pelos conhecimentos que adquiri, pelas pessoas que conheci, pelos amigos, aí sim, verdadeiros amigos que tive, mas por todo um conjunto de situações que durante todos esses anos aconteceram.

Recordo um natal, em que a minha patrulha, da qual eu era guia, propôs ao chefe do grupo, como boa acção, tornar um pouco mais feliz e farta a ceia de natal de um asilo de idosos, que existia bem perto de nós. O problema consistia naturalmente, em como conseguir dinheiro para efectuar as compras dos géneros alimentares, e comprar uma lembrança para os residentes do asilo, pois muitos havia a quem os familiares já se tinham esquecido da sua existência.

- Já sei! Vamos para a porta da igreja engraxar sapatos, e o dinheiro que ganharmos vai servir para concretizarmos a nossa boa acção.

A patrulha era constituída por oito elementos, e sem saber pregar um prego sequer, lá conseguimos construir uma caixa de engraxador para cada um. O nosso chefe foi falar com o pároco e ele imediatamente abraçou a ideia, comunicando aos paroquianos que durante três domingos, no final das missas, os escuteiros iriam estar no átrio da igreja a engraxar sapatos a quem quisesse, em troca de uma contribuição monetária, para que com esse dinheiro, pudéssemos comprar os tais alimentos e um mimo para oferecer aos velhinhos.

Quando chegou o primeiro domingo, a igreja estava completamente cheia de paroquianos. Nós, cá fora, nervosos, com medo de sujar as meias de graxa a alguém e expectantes por ver a reacção das pessoas, aguardavamos impacientemente que a missa acabasse.

Tínhamos 15 anos, já olhavamos para a sombra, e a vergonha de que as miudas nos vissem a engaxar sapatos e a fracassar na nossa empreendedora acção, deixava-nos ainda mais nervosos.

Eis que se abrem as portas da igreja ! Os sete ou oito engraxadores de meia-tijela, ali estavam virados para a saída. A avalanche de homens e mulheres foi tamanha, que nem sequer sujamos o pano com que íamos espalhar a graxa nos sapatos .

Ninguém quis ir de sapatos a brilhar para casa.

Para nosso espanto, as pessoas limitavam-se a colocar o pé na base, e, simbólicamente, nós passavamos a escova no sapato, enquanto as nossas boinas, pousadas no chão, se enchiam de notas e moedas, bem como os nossos corações, de alegria e felicidade. Claro que apareceu um ou outro malandrote, brincalhão, que quis o serviço completo.

Escusado será dizer que a ceia no asilo foi algo de maravilhoso.

As nossas familias envolveram-se, levando bolos, prendas, arranjando a mesa, e nós com as nossas músicas, com as nossas brincadeiras, lá fizemos a festa, e por uma noite conseguimos fazer alguém mais feliz.

Recebi muito mais do que aquilo que dei. Reconheci-o na altura e constato-o hoje, ao relatar este acontecimento. Os meus olhos enchem-se de lágrimas e o meu coração de alegria e felicidade.

Mais do que quando a minha boina, começou a transbordar de caridade e solidariedade.
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